Livro - Prólogo
Mar 16, 2026 - ⧖ 3 minA chuva de Edimburgo não cai – ela habita. Naquela noite de novembro, a cidade inteira parecia dissolvida em água: o basalto negro da Royal Mile devolvendo reflexos deformados dos postes de sódio, as calhas vomitando séculos de fuligem sobre calçadas que já não lembravam de ter sido limpas. Havia um cheiro antigo no ar, de turfa e pedra molhada, o tipo de cheiro que faz um homem acreditar que o passado nunca realmente passou.
No fundo de Cowgate, onde os prédios se inclinam uns sobre os outros como conspiradores trocando segredos, a escuridão tinha textura. Podia-se quase tocá-la, senti-la aderir à pele como musgo.
A jovem percebeu tarde demais que havia cometido um erro. O casaco de lã, fino demais para o frio que cortava os ossos, agarrava-se ao corpo como um pedido de desculpas. Ela escolhera o Advocate's Close como atalho — aquele corredor estreito onde até de dia a luz parecia pedir licença para entrar. Agora, com os dedos tateando a parede úmida e irregular, cada passo ecoava duas vezes: o seu e o dele.
Porque havia alguém atrás dela. Ela sabia disso da forma como se sabe que uma porta está sendo observada antes de se virar — um instinto anterior à linguagem, anterior à razão. Mas não ouvia passos. Apenas os seus, e o silêncio impossível de outra presença.
Acima, as gárgulas de St. Giles assistiam com seus olhos cegos de pedra. Tinham visto coisas piores. Ou talvez não.
Ele não tinha pressa. O medo, sabia por experiência, é um animal que se alimenta de movimento — quanto mais a presa corre, mais rápido o coração bombeia, mais fácil o sangue encontra a saída. Então ele apenas caminhava, com a cadência de quem conhece cada pedra daquele beco, cada sombra, cada ângulo morto onde a luz dos postes não alcança. Não via naquela mulher um corpo. Via uma oferenda. Via um erro da cidade que precisava ser corrigido.
Quando agiu, foi com a precisão de um ritual ensaiado mil vezes na mente. Não houve grito. O aço encontrou a garganta num arco tão limpo, tão exato, que o próprio sangue demorou um instante para entender o que havia acontecido — e então veio, quente e escuro, como uma confissão que não podia mais ser contida.
Ele a segurou enquanto ela caía, com uma delicadeza que em outro contexto poderia ser chamada de ternura. Deitou-a sobre as pedras irregulares com o cuidado de quem posiciona uma peça num tabuleiro. Cruzou-lhe os braços sobre o peito, ajustou o ângulo do rosto — ligeiramente inclinado, como as efígies de pedra nos túmulos dos cavaleiros da capela de Rosslyn. Então, do bolso do casaco, retirou uma pequena moeda de cobre, tão antiga que as bordas já haviam perdido a forma. Polida até brilhar, ele a depositou sobre o peito dela como um selo.
Ficou ali por um momento, contemplando a composição. Faltava algo? Não. Estava perfeito.
Os passos dele se dissolveram na chuva como se nunca tivessem existido. Edimburgo continuou a respirar — suas chaminés exalando fumaça, seus pubs exalando risadas, seus becos exalando o tipo de silêncio que só as cidades muito antigas conhecem. Alheia ao fato de que, nas suas entranhas, alguém havia começado a escrever uma história com sangue.
...continua...